VOYEURISMO LITERÁRIO

DESNUDA CONTO: Um BLOG para quem tem curiosidade de saber como se dá a arquitetura de um conto, desde a idéia inicial à construção do enredo, cenários e personagens.
Aqui, revelarei despudoradamente minhas experiências durante a criação de um novo trabalho literário, como inpiração, autores e livros que influenciaram na edificação do projeto, curiosidades, sucessos, fracassos, futuros desafios e como meus amigos e familiares, meu trabalho e vida social influenciam no desenvolvimento de meus textos.
Pode entrar. O conto é seu.


quarta-feira, 15 de setembro de 2010

DESCANSA

Passei o feriado de 07 de Setembro, na cidade litorânea de Canoa Quebrada, aqui, no Ceará. Era madrugada, todos estavam dormindo, enquanto eu tomava algumas doses, tragava alguns cigarros, sozinho, esperando que o sol nascesse. A solidão durou pouco... Este texto serpenteou dentre o lusco-fusco do dia que surgia e me delatou descaradamente...
Duvido, mas creio. Ele não é de verdade. Muito papo, tanto riso, pouca carne, tenta me convencer que ir até a esquina valerá à pena. Mas descer a minha própria rua já é de um risco gigantesco, prefiro não segui-lo, esperarei por meu pai, minha mãe, meu desejo de parecer real, mas eles também terão medo. Ele segurou minha mão e disse agora!, agora quem?, agora quando?, agora hoje?, agora ele parece de verdade?, ou agora ele finge que não mente? Agora nada. Quieto. Eu parado. A interrogação na esquina. Ou a interrogação depois deste jamais que não sinto de fato?

Ele sabe. Eu não sei e finjo saber. Ele ri bobo, a boca torta, quase verdadeira, fala pouco, até a esquina, até a esquina. Até lá, não posso. A esquina contém possibilidades que já me interessaram um dia, mas... Agora não. Agora somente se neste agora eu não fosse quando, que eu fosse antes. Fica aqui, não vai, não me chama, permanece. Eu não sou movimento. Eu sou mudo. Mudo. Ah, é? Você diz que a estátua vai? Ai, ela vai, meu bem, mas não fala! Muda! Muda! Muda! Desista, desnecessário herói. Não me salve da mentira que amo e que leva teu nome. Ate lá não irei. Que sono... Que sono... Que sonho? Quando durmo? Durmo...? Sonho? Ai, sai, não descerei a rua. Aqui. Aqui. Aqui é tranquilo e parece bom mentir-se um simulacro da paz. Não tu. Eu. Deixa-me. Sem ti, permito minha mão que vez ou outra me parece amiga, não a esquina que se dobra feito cotovelo dolorido de espera, curvado sobre a mesa, diante do prato esquecido enquanto a tua fome passeia cansada dentre as pedras desta rua. Minha rua.

De onde ele veio? Ele é tu, percebe? Triste engano... Não teu... Meu. Ele é tu. Não há esquinas em palavras que parecem tão retas. Mas o simples fato de pensar em segui-lo, seguir-te, seria como me perder entre o desejo de ser devorado e o de jantar em casa. E se eu for? Ai, se eu for... Ai, já estive lá... Creia-me, amigo, que me faz mal por não bastar-me como tanto! Creia na farsa insolente que nem eu acredito! As esquinas são piores que o beijo de um sem lábios, que o beijo de um sem língua, porque as esquinas beijam bem. E te lambem, te enchem desta coisa perversa chamada é mais ali, segue, segue, e o tolo segue às cegas. Já fiz, já acreditei nestas mentiras que transformam o mundo em um lugar parecido com o que deveria ser, mas sei que ele é bem menor do que o mundo que leio nos livros de quiromancia, e menos claro, pouco sol. O mundo é do tamanho de meu olhar correndo a rua e vendo até onde fui e até onde decidi não voltar mais. Não vou. Não irei contigo. Mas, enquanto durarem as mentiras, segura minha mão e sustenta este riso de quem sabe que eu quero só mais uma vez descer até lá e esticar meu pescoço nas duas direções... E não ver nada. Olhos mutilados que cessaram o balbucio. Não preciso ver. Sou mudo... Basta-me, não vou. À esquina, não!

E este teu passo que avança na direção do eu sozinho? Lá não, meu bem! Lá existe o risco do eu nunca. Muitas vezes, eu nem sempre. Mas, eu aqui. Estou aqui. Escuta? Não? Ai, perdi! Perdi! Se não sente, é porque já está indo. Mas, para aonde, meu bem? Para aonde? Eu, cheio de orgulho, de gozo por não ir mais, e você seguindo sozinho... Ai, seu patife, que acaracia minha covardia! Aqui é quieto. Escuta-me, terrível amante que não me sabe, que não me percebe, e mesmo assim me arrasta até onde já fui e voltei com medo de todos os teus tis, teus tus, teus vocês, teus meus que não me pertencem. Escuta-me. Escuta-me. Sou mudo! Mudo! Mas todas as coisas que eu não disse, meu bem, estão aqui. Não, seu tolo, não dentro de mim... Nem mesmo na esquina. Todas as coisas que eu não disse estão entre estas palavras que não dizem nada e teus olhos que ignoram saber que tudo que eu não falo é sobre ti.

Não vai. Descansa.

Aqui.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

OS VARAIS

Eram de mundos diferentes. Possuíam elas quereres diversos.

Fora ela educada para o casamento, não para as prendas do lar. Sabia receber convidados soberbos em um jantar pomposo, mas não fazia sequer uma vulgar idéia de como prepará-lo, tinha bom gosto para a disposição dos móveis de mogno da sala, e não sabia lustrá-los com um pano embebido em óleo de peroba, entendia de jardinagem e conhecia todas as espécies possíveis de plantas ornamentais, mesmo assim, se recusava a cravar suas unhas de porcelana na terra que sustentava sua casa de bonecas. Filhos, jamais quis tê-los, pois, seus vasos intocados, suas paredes virgens, seus tapetes imaculados, filhos, não, não, não. Ela gostava de música, vestidos e novelas, pouco tolerava os próprios pensamentos que, vez ou outra, ousavam ser tais quais os masculinos. Ora, e mais uma bobagem destas, mulheres não sabem pensar como homens, então ria de si, um destes risos nervosos, que pouco disfarça qualquer inconfessável desconforto, e voltava sua atenção para as páginas vazias de uma revista de mexericos televisivos, por que os chamam galãs, vá entender, vá entender.

Tinha o marido perfeito, que não exigia dela nada além de sua natural habilidade em apresentar-se impreterivelmente bela e disponível, não para os inconvenientes carnais do matrimônio, mas para a fotografia tão bem emoldurada naquele insípido quadro de perfumes caros e olfatos caducos, impassíveis diante dos néctares e dos cios. Um homem como aquele, imperturbável e colossal diante do pequenino universo de frivolidades e extravagantes caprichos de sua esposa, em ocasião alguma permitiria que ela realizasse um único gesto fatigante e, assim, escurecesse seu rosto cuja luz atravessava diáfana a película de pó a rejuvenescer e transformar em mármore sua pele que, aos poucos, abandonava a mocidade ainda ontem tão presente, eternizada em cada poro. Portanto, Ninoca jamais significara para sua enevoada patroa uma serviçal, uma empregada doméstica. Na verdade, a mulher que coordenava seus desgastantes serviços a encarava como um amável presente de seu marido, uma prenda, um mimo.

Ninoca constrangia-se facilmente se a observavam trabalhar. Como se atravessasse portas e paredes, vigiava seus serviços o olhar daquela mulher de tez descorada e candura oca, socada em um robe vermelho escarlate, como o interior de um caixão. Esfregue um pouco mais, menina, parece não ter vigor nestes braços roliços, nestas pernas sólidas. A distinta senhora estorvava-lhe a cansativa rotina com rogativas supérfluas, o que mais vai me pedir esta madama, que eu me detenha a polir cabeças de alfinete ao invés de capinar o mato que cresce feito o diabo no quintal, reclamava Ninoca, de beiços torcidos, olhos cismados. Mas o pior momento do dia era a lavagem de roupas, quando a mulher que a espreitava costumeiramente e garantia seu soldo no final do mês acendia um de seus pavorosos cigarros acanelados e recostava-se ao umbral da porta que dava para a área de serviço, não me diga que está com medo de se molhar, cabrocha, eu que não posso, que sou tão fraca, é só água, é só água, menina, anda, anda, que ainda temos as cortinas.

E Ninoca balançava os quartos volumosos no mesmo ritmo em que batia as peças mais pesadas contra a lavanderia, a água fria espirrava sobre sua blusa de flanela, a fazer cócegas, eriçar-lhe, que refresco, que delícia. Enquanto a umidade revelava a perfeição de seus peitos melindrosos e atrevidos, o cheiro forte de canela e tabaco parecia entorpecê-la, enquanto a patroa zelosa e atenta vampirizava sua juventude, suas carnes firmes e inquietas, que moleca vulgar, preciso de outro cigarro. O sol a refletir-se naquela pele canela, marrom-tabaco, com o cheiro forte do povo, deste repugnante aroma de gente. A diaba toda molhada e o corpo em brasa, aceso. As bochechas da bunda saltando do short jeans barato, de uma indecência galhofeira e voluptuosa. Na ponta dos pés, ela a pendurar lençóis enquanto o vento os sacudia sobre seu corpo, envolvendo-a, transformando-a em um mistério ainda maior que a libido despertada por seus xucros, e talvez selvagens, encantos.

Acha o que, a sonsa, que vou manchar suas toalhas, que roubarei algum vestido, maldita, maldita mulher, mal-empregado, casada com um homem tão bom, tão bonito, morta dentro das calças, esta vespa inútil, queixava-se Ninoca falando baixinho, a estender roupas nos varais que desenhavam um labirinto avesso a toda a nudez que habita os silêncios contemplativos. Um prendedor dentre os dentes de uma, um cigarro pendurado nos lábios da outra.

O corpo de Ninoca era bonito assim, sob o sol, molhado de água e sabão, transpirando como uma fruta fresca, ansiosa por ser mordida sobre o mato daninho que havia crescido no quintal da casa que ela sonhava sua, que homem bonito, que vespa inútil. A mulher sabia que não era natural ter aqueles pensamentos tipicamente masculinos, mas, se Ninoca havia sido um regalo que recebera das mãos de seu próprio marido, quem poderia censurá-la?
Entra, menina, vai assear-te. E deixe a porta do banheiro entreaberta, que não quero ser roubada, não me leve mais nada, Ninoca. Mais nada.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

IDÉIAS SECANDO AO SOL...


Vieram-me à mente umas ideiazinhas destas que parecem percevejos sobre a cama, que não nos deixam dormir em paz até que levantemos e sacudamos os lençóis. Mas sinto que este novo projeto é tão cheio de nuanças e sutilezas que não poderei concebê-lo assim, sem compreendê-lo em suas diversas camadas. Talvez eu nunca tenha adentrado o universo feminino como pretendo fazer neste trabalho, que já está me enchendo de encantamento e emoção antes mesmo de eu tê-lo transformado em palavras... Duas mulheres e muitas peças de roupa a serem estendidas. É. É um bom começo...

terça-feira, 3 de agosto de 2010

A VENDEDORA DE ARRANJOS

Tinha o filho da Celma Roleira, uma moça de seus vinte e poucos anos que largara o marido evangélico a fim de fazer ponto em frente ao Parque da Paz, local de descanso eterno de sua finada sogra católica que tanto debulhara rosários para vê-la morta. O menino da Lindinete também era mandado para lá quando sua mãe precisava trabalhar no turno da madrugada na usina de asfalto, aspirando os gases que um dia a matariam antes que ela sofresse o desgosto de ver o filho transformado em um homem pior que o pai. A Fátima deixava sua pequena ali para que assim pudesse limpar do chão as cusparadas do Cabaré Recanto das Garotinhas, sua filha mal a reconhecia, não a chamava mamãe, mas Fati. Também tinham os gêmeos, filhos da Robecilda, que sequer pareciam irmãos tal a falta de semelhança entre as duas crianças rejeitadas pelo homem que duvidava ser pai de qualquer uma delas, imagine das duas. Já o neto do Lobato Bicheiro tinha certas regalias, sendo que a mais importante delas era o fato de comer melhor que as outras crianças e de só beber leite de caixa. Os sobrinhos da Natércia, o filho ilegítimo do Zeca Ramos, as três meninas do Luiz Pintor e da Manu Sacoleira, o enteado do Paulo Babau, o filho adotivo da Maria Leirte, as crias da Nádia, os entojos da Veralda. Todos, vez ou outra – e alguns a semana inteira – eram deixados aos cuidados dela, que ficava com os filhos de suas vizinhas em troca de algumas dezenas de reais por mês.

Às vezes preferia receitar alguns tóxicos inorgânicos como arsênio, antimônio, chumbo, cobre, ferro e fósforo, ou então indicava chá de losna, alecrim, zabumba e de várias outras ervas amargas. Se a moça estivesse grávida de até quinze semanas, ela preferia fazer com uma cureta a raspagem da placenta e das membranas que envolvem o embrião, cercando-se de todos os cuidados para não perfurar a parede do útero das jovens mulheres que a procuravam. E, para aquelas que já estavam pra lá da vigésima semana de gestação, ela possuía um método que consistia em anestesiar um ponto entre o umbigo e a vulva, ultrapassando a parede do abdome, do útero e do âmnio. Com a mesma seringa utilizada para diminuir a sensibilidade, ela aspirava o fluído da bolsa d’água, substituindo-o por uma solução salina que tinha como efeito as contrações que expulsavam o feto. Todas, vez ou outra – e algumas mais de uma vez por ano – procuravam pelos cuidados dela, que abortava os filhos de suas vizinhas em troca de algumas dezenas de reais.

Dona Josefa fora enfermeira do Instituto Dr. José Frota por mais de três décadas dedicadas ao mazelados, amputados e enfermos. Jamais casara ou tivera filhos, jamais dividira suas mãos – que por muito pouco não curavam miraculosamente – com o gozo de um possível marido ou com os egoísmos pueris de um caçula. Eram tantas as feridas, cânceres, viroses. E também era tanta a morte. Não havia espaço para o amor. O amor acabaria por destruir sua inclinação natural, a desviaria de seu intento em cuidar daqueles que ninguém mais no mundo queria sarar as feridas e cicatrizar a alma deteriorada pela dor e pelo abandono. Assim, o álcool acabou por tornar-se uma opção óbvia e indispensável à manutenção de sua renúncia, seu martírio. Mas o vinho parecia sem vigor, os licores não lhe saciavam a sede, então vieram o uísque, a vodca, a cachaça, a garrafa de vinagre, o vidro de perfume. Dona Josefa perdera seus doentes, seu hospital, seu emprego, seus periquitos, seu jardim e sua casa, fora morar em um barraco na Favela Maravilha onde por muito tempo passara por toda sorte de privação, estava partida ao meio, quebrada.

Lindinete foi a primeira que propôs o negócio. Se a senhora não bebesse, eu deixava meu Lalo aqui pra mim poder trabalhar um pouco mais, daí eu teria como lhe dar um agrado, a senhora já foi enfermeira, deve saber de cuidar de criança, mas esta bebida, ai, não, eu não teria coragem. Foi o suficiente para que Dona Josefa largasse o álcool e passasse a cuidar das crianças de algumas mães solteiras de sua rua, mulheres que trabalhavam em bairros afastados como domésticas ou operárias. Não acredito que aquela cabra velha largou a manguaça assim do nada, ainda vai matar o filho de alguma infeliz um dia destes, ainda vai por fogo naquele barraco. Mas a tragédia não veio e o vício estranhamente jamais voltara a agarrar-lhe à força pelo gorgomilo durante o tempo em que cuidara das crianças. Tornara-se então uma espécie de avó zelosa para os filhos daquelas jovens mães que também haviam sido criadas na casa dos outros, no meio da rua, sob a cinzenta proteção dos viadutos. Dona Josefa tinha pressa, precisava insuflar de conforto e amor a vida daquelas crianças que logo estariam jogadas por estas esquinas que mais parecem pústulas venéreas, caídas ao chão, derrubadas pelo fogo da arma empunhada pela mão do menino com o qual um dia soltaram arraias, despidas de dignidade, desprovidas de atenção, esquecidas. Era mister amar aqueles pequenos antes que o mundo os desfigurasse com seu metal implacável. Dona Josefa tinha pressa em acarinhá-los, enchê-los de beijos e de mimos, pois ela sabia que, logo ali na frente, esta traição chamada destino – que só cumpre sua sina na história dos miseráveis – espreitava ansiosa.

Veralda foi a primeira que propôs o negócio. Se a senhora não bebesse, eu ia pedir pra tirar esse menino que eu tô esperando, daí eu não ia precisar sair do meu trabalho e teria como lhe dar um agrado, a senhora já foi enfermeira, deve de saber de tirar criança, mas esta bebida, ai não, eu não teria coragem. Foi o suficiente para que Dona Josefa largasse o álcool e passasse a realizar abortos em algumas mães solteiras da rua, mulheres que trabalhavam em bairros afastados como domésticas ou operárias. Não acredito que aquela cabra velha largou a manguaça assim do nada, ainda vai matar alguma infeliz um dia desses, ainda vai tremer a cureta e encher de sangue aquele barraco. Mas a tragédia não veio e o vício estranhamente jamais voltara a agarrar-lhe à força pelo gorgomilo durante o tempo em que cuidara dos abortos. Tornara-se então uma espécie de avó zelosa para os filhos abortados daquelas jovens mães que também haviam sido criadas na casa dos outros, no meio da rua, sob a cinzenta proteção dos viadutos. Dona Josefa tinha pressa, precisava evitar que viessem ao mundo aquelas crianças que logo estariam jogadas por estas esquinas que mais parecem pústulas venéreas, caídas ao chão, derrubadas pelo fogo da arma empunhada pela mão do menino com o qual um dia soltariam arraias, despidas de dignidade, desprovidas de atenção, esquecidas. Era mister salvar aqueles pequenos antes que o mundo os desfigurasse com seu metal implacável. Dona Josefa tinha pressa em libertá-los, livrá-los das agressões e dos descasos, pois ela sabia que, logo ali na frente, esta traição chamada destino – que só cumpre sua sina na história dos miseráveis – espreitava ansiosa.

Não sei bem quantas crianças vivas ou mortas Dona Josefa acreditava ter salvado das aflições do mundo. E, se não me falha a memória, pouco tempo antes que a morte a levasse embora da Maravilha, ela voltou a beber.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Tá difícil...


Enquanto brincava com o controle-remoto da tevê na noite deste último domingo, me deparei com uma matéria sobre uma mulher que havia matado oito filhos recém-nascidos, enterrado dois deles no jardim de sua antiga propriedade e os outros seis na garagem de sua nova casa, na aldeia de Villers-au-Tertre, França.

A idéia de escrever sobre aborto já era antiga, mas nunca havia sentido que havia chegado o momento certo. Mas esta história me deu um estalo e, de assalto, fui tomado por uma personagem que ganha a vida cuidando dos filhos de suas vizinhas e realizando abortos naquelas que não querem ter filhos... Talvez ela enterre os pequenos corpos em seu próprio jardim, não sei.

Não quero que seja uma história assustadora ou triste. Quero criar uma narrativa crua, seca, dura, todavia, de modo que minha personagem não perca a verossimilhança, que ela seja pacata, humilde, quase dócil, que pareça com tantas mulheres por aí que ganham a vida de maneira pouco convencional e que mesmo assim não deixam de ser humanas, de carne-e-osso... Mas ainda está muito difícil. Vai ser um mergulho daqueles!...




quarta-feira, 28 de julho de 2010

Finalmente... O bendito conto da gravata!

Meus queridos, foi um parto difícil, mas o filho é bem-vindo. Tive que pensar mil coisas acerca de minhas próprias experiências que envolviam desejo e frustração para compor a personagem, muitas vezes me peguei envergonhado por tantos medinhos, por meus pequeninos recalcos, que tanto me atrapalharam... Mas achei minha gravata na rua e não a dei de presente a quem não a merecesse...
NÓ ORDINÁRIO
Sempre fora muito boa em adivinhar coisas óbvias e tratar suas pequenas descobertas como indício incontestável de seus dotes premonitórios. Jamais o leite fervera a ponto de transbordar sobre seu polido fogão, ela acreditava sentir quando as coisas estavam prestes a fugir do controle, então, diminuía a chama e deitava anônima ao lado do estranho que há quinze anos tomara por esposo. Também hoje, ele não irá me tocar, pensava ela e logo em seguida adormecia satisfeita do próprio talento em prever aquilo que, quase por toda sua vida, se mantivera imutável. Meus filhos me odeiam, meus vizinhos riem de mim, meu pai morrerá hoje, dizia para si mesma como se a masturbação psicológica compulsiva que a escravizava na verdade fosse uma voz interior, uma intuição que nunca falhava, ou quase nunca. Papai não morreu hoje. Amanhã, quem sabe.

Cebolas, não. Há cebolas demais, todas cortadas. Esse peixe está excessivamente fresco, chega a ser repugnante seu viço, não me serve. O jenipapo é quase um pecado, acidulado e de aroma forte, de tão doce, nos envenena o esquecimento. Deixarei os jenipapos. Hoje, levarei limões.

Com sua felicidade insossa, ela fazia a feira sem pressa, fingia-se exigente e atenta à putrefação dos orgânicos, enquanto aspirava para dentro de si o cheiro dos feirantes, dos homens corpulentos a carregarem caixotes sobre as costas bubalinas, peitos peludos e suados à mostra, pés descalços e unhas encravadas, brutos, sujos, fornicáveis analfabetos de merda. Sofria ao completar sua lista mental de paliativos culinários, não queria ir embora, sonhava com mais alguns esbarrões, com mais umas tantas esfregadas que transformavam a feira em seu lugar no mundo onde amenas promiscuidades eram permitidas. Minha transgressão de dona-de-casa, meu voluptuoso e solitário puteiro.

Ainda devia passar na costureira e verificar se o arremate do vestido da cerimônia de primeira comunhão de sua filha havia ficado como o da revista de moda. Sua caçula vestida de branco, recebendo o corpo e o sangue de cristo, comungando com Deus, enquanto ela própria trocava jenipapos por limões. Minha filha será uma mulher melhor que eu, fará compras no eBay, não na feira-livre. Mas, antes que chegasse à casa da costureira, uma gravata. Repentinamente, as sensações premonitórias tomaram-lhe de assalto e fomentaram seu espírito manso e domesticado de infinitas razões para aquela peça do vestuário masculino estar ali, entre o peixe fresco e a hóstia consagrada. Olhou para um lado e para o outro com a astúcia de um gatuno e recolheu a gravata do chão, enfiando-a de um único golpe na sacola abarrotada de carnes, frutas e leguminosas. Sou uma puta. Sou uma ladra. Sorriu satisfeita de seus pobres segredos, os quais julgava terríveis.

Não quis macular a brancura virginal do tecido que vestiria sua filha para o tão esperado ritual cristão, suas mãos sujas de alface, frango e, ai, aquela gravata. Vermelha. De seda. Não, não havia sido uma coincidência, só mesmo o destino, ai, o destino. Pegou o embrulho que guardava o vestido e pagou a mulher pelo caprichoso serviço, ninguém faria melhor, igualzinho ao da revista, vai parecer uma santa.

Entrou em seu carro afogueada, jogou a sacola de compras e o pacote da costureira no banco de trás. Antes de dar partida na fálica Frontier, espiou através do espelho retrovisor e admirou-se de sua conquista, Deus e o Diabo sentados lado a lado, feito irmãos. Ai, como fui tola, deveria ter trazido os jenipapos. Nunca sentira tanta vontade de chegar a algum lugar, deitaria nua e suada sobre a cama que o marido parecia incapaz de manter quente e se enroscaria naquela gravata, Eva e a Serpente a debocharem de um Adão combalido, sementes de jenipapo perfumarão minha vulva que cheira a peixe fresco. Pisou fundo e chegou em casa antes de adivinhar aquilo que logo aconteceria, ignorou completamente a imprevisibilidade das coisas e mal percebeu que muito em breve seria traída.

A filha ficou linda dentro do vestido de primeira comunhão, girou pela sala feito uma princesa casta e deixou a mãe tonta e envergonhada. Mentiu que precisava de um copo d’água e fugiu para a cozinha. Primeiro o cheiro-verde, depois as bananas, as beterrabas, as cenouras, tirou tudo cuidadosamente da sacola e, enfim, recolheu o sensual tecido sedoso, vermelho, e levou-o para o quarto como quem orienta os passos de um amante. Ao abrir a porta, para sua infeliz e pérfida surpresa, encontrou o marido ainda ali, pela primeira vez em anos, atrasado para o trabalho. Não acho minhas gravatas, onde estão minhas gravatas, esbravejava o homem a revirar gavetas e armários. Ela então desistiu do libidinoso sonho, não poderia concretizar seu intento em cometer adultério, tudo estava perdido. Ergueu o braço como quem se rende e se suicida incólume. Toma, comprei pra ti. O homem agarrou a peça com frieza e traçou o nó ordinário ao redor de seu pescoço pouco venoso, sequer sentiu o cheiro de feira impregnado no delicado tecido, segurou sua maleta repleta de assuntos mais importantes que ela e abandonou o quarto.

Deitada sobre a cama que poucas vezes lhe dera prazer, lembrou-se dos limões que havia trazido no lugar dos jenipapos. Prendeu as duas mãos em gesto de oração dentre as pernas insatisfeitas, juntas ao sexo frustrado, pensou na filha vestida de branco e desistiu de lutar contra aquilo que sua psique intuía.

Vou chorar.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

O NÓ DA GRAVATA

Acho que, desta vez, o bendito conto da gravata vai deixar o mundo das idéias e se incorporar na ponta de meus dedos. É bem provável que ele me saia um tanto quanto diferente da idéia original, mas, mesmo assim, será bem-vindo. Não me queixo de surpresas, pelo contrário, sou um grande fã delas... Mas, hoje não. Hoje quero sair e beber com os amigos, hoje quero falar besteiras e rir da vida alheia sem pudor nenhum. Tive uma semana cheia, eu mereço.